“Com grandes poderes, vem grandes responsabilidades”.
A frase
eternizada pelos filmes do Raimi no imaginário das pessoas sobre o aranha é,
quando se vê a fundo, somente um recorte do que é um personagem tão complexo
quanto Peter Parker, e seu alterego.
Ao analisar a
psicologia de Peter, o que vemos primeiro é a figura do ressentimento. Peter se
ressente de crescer sem os pais, mortos quando ele era bem pequeno. A
personalidade da criança sofre um embate enorme na formação ao encarar uma
tragédia tamanha como essa.

Um eu tímido, já
presente no garoto, pode ter sido incentivado pela criação recebida pelos tios.
Os valores de May e Ben não incluíram o ambiente ao redor, que pode ser bem
cruel, que o mesmo Peter descobre e experimenta durante toda a passagem pela
escola. Cresce o ressentimento contra os valentões e contra a impotência de se
revoltar contra tais valores, que vemos tão enraizados no crescimento do
personagem.
E aqui, temos o
primeiro embate moral do personagem, e ele reside justamente na reviravolta do
ganho dos poderes (potência para se opôr ao ressentimento) e na frase-mantra do
Spidey: tenho grandes poderes, mas por que tenho responsabilidade com essas
pessoas que tanto me maltratam? Com a sociedade que não preza nada senão a si
mesma?
Vemos o
resultado disso na primeira atitude do herói que é ganhar dinheiro com seus
poderes e dane-se o resto do mundo.
O ego do Peter
decide rejeitar esses valores, que tanto trouxeram sofrimento para ele. Peter
vê que, como o Homem-aranha, ele finalmente não precisa se submeter ao mundo ao
redor. Pode ser seu protagonista.

Mas, eis que vem
o outro embate marcante em sua vida: a morte do tio. Talvez esse fato não
incidisse tanta importância ao rapaz não fosse a rachadura moral que ocorreu no
id do rapaz. Ele se viu pagando o preço de rejeitar os valores que lhe foram
ensinados da pior maneira possível e isso lhe causou uma imposição moral que
perdura até os dias de hoje.
O que isso causa
em alguém como Peter?
Um ser
compactado a uma linha de conduta que, por mais que se faça contraditória e
gere insatisfações pessoais, não pode ser rompida. As outras mortes que
envolveram o personagem o colocaram em um outro ponto de ressentimento: o de
não poder renunciar as responsabilidades de seus poderes.
Várias foram as
vezes que o personagem tentou rebelar-se contra a linha moral– números The Amazing Spider-man #50-52, quando o
herói abandona o manto, mas volta tendo como motivo um policial parecido com
quem? Pois é, o Ben; o traje negro pós Guerras Secretas - sem sucesso, pois a
linha moral imputada pela morte de Benjamin é extremamente forte no
inconsciente de Peter.
A raiva de Peter
só se solta contra o oposto que viola sua linha moral. O herói só computa a
noção de morte quando o Duende Verde mata sua namorada Gwen. Isso por que o
Homem-aranha é o resultado do contraste que todos nós temos de e

scolher na
vida: o do caminho que tomamos como certo e as contradições que o mundo real
apresenta.
Esse embate pode
ser visto no arco da Guerra Civil, onde, pensando seguir o caminho certo, o da
responsabilidade, Peter tira sua máscara e é, novamente, “punido” por isso: sua
tia leva um tiro.
De novo, o
ressentimento explode, mas aqui temos uma particularidade: Peter recorre ao
traje negro, uma liberação para sair da linha moral.
Concluímos essa
primeira coluna com o exemplo do Superior Homem-aranha nº 1. Na edição 700
temos a morte do personagem e a passagem do manto ao Otto Octavius, mas não sem
antes uma passagem no limbo em que Peter reencontra os personagens mortos de
sua existência. O alívio da responsabilidade é notável, mas a linha moral o
compele a voltar e não deixar o vilão, o
oposto vencer.
Temos, no fim,
toda a carga dessa ética no combate final, onde o Dr. Octopus entende o que é
ser o Homem-aranha e, curiosamente, se vê também preso a linha moral de Parker.
Mas é só na
edição 1 do Superior que vemos a linha moral transcender todos os limites,
quando um Peter etéreo impede que o Homem-aranha superior ultrapasse a linha da
responsabilidade.
Em suma, um
caráter complexo, atormentado por suas decisões sempre atreladas ao caminho que
escolheu e que não consegue ir de encontro a esse caminho. Peter Parker é o
exemplo do ser sempre em uma encruzilhada, que a todo tempo precisa escolher um
caminho que não o leve para longe de sua trilha. Ele precisa ver em preto e
branco em um mundo totalmente cinza. E é isso que fascina tanto no personagem:
não é o que somos todos nós?
Por Eurico Santos